O Mesmo Tempo.
Escritabsurda difícil de apagar.
André Francisco Gil.
14/08/2026. 16:32
Na primeira página do diário, ele havia escrito uma pergunta que lhe parecia tão absurda que passou três dias tentando apagá-la, embora estivesse escrita a lápis: Como posso viver no mesmo tempo que determinadas pessoas? Não era uma pergunta sobre relógios, calendários ou fusos horários. Era outra coisa. Uma espécie de vertigem. Ele pensava em pessoas que haviam atravessado a mesma cidade décadas antes de ele nascer, em homens que haviam amado nas mesmas ruas onde ele agora comprava pão, em mulheres que haviam esperado ônibus nos mesmos pontos, crianças que haviam brincado diante das mesmas árvores, velhos que haviam morrido olhando para janelas que talvez ainda existissem. Pensava sobretudo nos mortos famosos, porque esses tinham deixado fotografias, livros, filmes, cartas, discursos, assinaturas, objetos. Pareciam menos mortos do que os outros. Era como se tivessem conseguido esconder uma parte de si dentro do tempo. Às vezes, diante de uma fotografia antiga, ele sentia uma espécie de indignação: aquele homem de terno escuro, parado diante de um edifício demolido havia quarenta anos, não sabia que ele, o homem do presente, estaria ali um dia olhando para sua fotografia. E, no entanto, os dois tinham ocupado o mesmo universo. Tinham respirado o mesmo ar terrestre, embora separados por décadas. Tinham vivido no mesmo planeta, sob o mesmo céu, talvez sob a mesma lua. Então por que sua existência parecia tão distante da existência daquele desconhecido?
No diário, ele não escrevia exatamente aquelas palavras. Escrevia de maneira mais confusa, porque as perguntas verdadeiras raramente aparecem organizadas. Uma delas dizia: Quantas vidas existiram antes de eu aparecer? Outra: Quantas pessoas já morreram sem saber que eu existiria? E uma terceira, que ele havia circulado duas vezes: Quantas pessoas ainda vão nascer depois que eu desaparecer? Essa última o perturbava mais. Imaginava uma criança que nasceria cinquenta anos depois de sua morte, caminharia por uma avenida que talvez ainda tivesse o mesmo nome e compraria alguma coisa em uma loja que ainda não existia. Essa criança teria suas próprias preocupações, seus próprios medos, suas mensagens no celular, suas fotografias, seus pequenos fracassos e uma pessoa que amaria profundamente. Talvez um dia essa criança estivesse diante de um computador, procurando informações sobre o século em que ele havia vivido, e encontrasse uma fotografia sua. Talvez nem isso. Talvez passasse pela vida inteira sem jamais saber que ele existira. E, ainda assim, durante alguns segundos, aquele futuro desconhecido e sua própria vida estariam ligados pela mesma palavra: tempo.
Foi então que começou a fazer uma coisa estranha. Todas as noites, antes de dormir, abria um mapa digital da cidade e procurava fotografias antigas dos lugares por onde havia passado durante o dia. Descobriu que a praça onde comprara café havia sido, décadas antes, um estacionamento. Antes disso, um cinema. Antes do cinema, uma casa enorme cujo proprietário tinha um sobrenome que ninguém mais conhecia. Descobriu que o terreno do supermercado onde fazia compras pertencera a uma família que criava cavalos. Descobriu que o prédio onde trabalhava tinha sido construído sobre os alicerces de outro edifício. Começou a ampliar as fotografias e a observar as pessoas que apareciam ao fundo: um homem carregando uma sacola, uma menina de vestido branco, duas mulheres conversando na calçada, um rapaz de bicicleta. Pessoas sem nome. Pessoas que tinham sido o centro absoluto de alguma vida. Cada uma delas, em algum momento, havia pensado que o presente era o presente definitivo. Nenhuma sabia que seria reduzida a um rosto minúsculo no fundo de uma fotografia antiga.
Certa noite, encontrou uma fotografia de 1978. Não havia nada de extraordinário nela. Era uma rua em uma tarde ensolarada. Carros antigos, postes, árvores jovens, algumas fachadas que já não existiam. Ele quase fechou a página, mas percebeu um rapaz sentado sozinho em um banco. Vestia uma camisa clara e segurava um livro aberto. Havia algo naquele rosto que o incomodou. Aproximou a imagem. Depois aumentou novamente. O rapaz parecia estar olhando diretamente para a câmera. O que o perturbou não foi a semelhança física — não havia nenhuma —, mas uma sensação inexplicável de reconhecimento.Naquela noite, sonhou com ele.No sonho, a praça estava vazia. Não era a praça de 1978 nem a praça do presente. Era uma mistura das duas, como se diferentes décadas tivessem sido colocadas umas sobre as outras. O rapaz estava sentado no banco, com o mesmo livro nas mãos.
— Você está atrasado — disse ele.
— Para quê?
— Para nascer.
Ele acordou antes de conseguir responder.Durante alguns dias tentou esquecer aquilo. Não conseguiu. Voltou à fotografia. Depois procurou outras imagens do mesmo lugar. Encontrou o rapaz em três fotografias diferentes. Em uma, estava atravessando a rua. Em outra, aparecia ao fundo, próximo a uma banca de jornais. Na terceira, estava sentado no mesmo banco.E havia algo impossível.Em todas as fotografias, o rapaz parecia exatamente igual.Ele passou a madrugada comparando as imagens. A mesma camisa. O mesmo cabelo. O mesmo rosto. O mesmo livro.No dia seguinte, foi até a praça.O banco continuava lá.Sentou-se.
Por alguns minutos não aconteceu nada. Crianças correram perto do chafariz. Um homem passeava com um cachorro. Uma senhora falava ao telefone. Um entregador atravessou a praça olhando para o celular. Tudo perfeitamente normal.Então ele percebeu que havia alguém sentado ao seu lado.O rapaz da fotografia.Não parecia mais velho. Não parecia morto. Não parecia fantasma. Parecia apenas alguém que havia chegado antes.
— Você finalmente entendeu — disse o rapaz.
— Entendi o quê?
— Que não existe antes e depois da maneira como vocês imaginam.
Ele ficou imóvel.
— Quem é você?
O rapaz sorriu.
— Essa é uma pergunta difícil. Para você, eu sou alguém que viveu antes. Para mim, você é alguém que viverá depois.
— Mas você morreu?
— Sim.
— Então como está aqui?
— Você também está aqui quando alguém se lembra de você.
Ele olhou ao redor.
— Isso não faz sentido.
— A vida quase nunca faz.
O rapaz abriu o livro. As páginas estavam em branco.
— Você acha que está vivendo sozinho no seu tempo — continuou ele. — Mas o tempo é uma cidade enorme. Há pessoas entrando pela porta enquanto outras saem. Algumas deixam fotografias. Outras deixam uma frase. Outras deixam apenas um nome na certidão. Outras não deixam absolutamente nada. Mas todas estavam aqui.
— E as pessoas que ainda não nasceram?
O rapaz fechou o livro.
— Também estão aqui.
— Onde?
Ele apontou para o espaço diante deles.
— Em todos os lugares que ainda não aconteceram.
A partir daquele dia, o homem nunca mais conseguiu olhar para uma rua da mesma maneira. Começou a imaginar as camadas invisíveis de existência sobrepostas às calçadas. Quando passava por uma casa antiga, pensava nas pessoas que haviam jantado naquela cozinha. Quando entrava em uma estação, imaginava os passageiros de cinquenta anos atrás e os passageiros que ainda não haviam nascido. Quando via uma criança brincando, pensava: esta criança é uma pessoa do futuro vivendo no meu presente.E começou a compreender que sua própria vida também estava cheia de futuros desconhecidos.
Um dia alguém pisaria no mesmo lugar onde ele agora estava. Alguém abriria uma porta que ele havia aberto milhares de vezes. Alguém se sentaria numa cadeira que ele havia ocupado. Talvez alguém encontrasse seu nome em um documento antigo. Talvez alguém lesse uma página de seu diário.Foi essa última possibilidade que o assustou.
Naquela noite, escreveu:Talvez a morte não seja desaparecer. Talvez seja apenas deixar de participar da conversa e continuar sendo mencionado por alguém que ainda não nasceu.
Parou.Depois acrescentou:Mas então o futuro também está cheio de mortos que ainda estão vivos para nós.E, pela primeira vez, não sentiu medo.Sentiu uma espécie de companhia.
Fechou o diário e apagou a luz. Antes de dormir, imaginou todas as pessoas que haviam existido antes dele: milhões de desconhecidos, amantes, crianças, trabalhadores, criminosos, santos, mentirosos, artistas, fracassados, sonhadores, homens e mulheres que haviam acordado pela manhã acreditando que aquele dia era simplesmente mais um dia.Imaginou também os que viriam depois.Milhões de desconhecidos.
E então compreendeu a estranha delicadeza de estar vivo: ninguém nasce em um mundo vazio. Cada pessoa chega a uma história que já começou há muito tempo e sai antes que ela termine. O presente é apenas o pequeno espaço de tempo em que diferentes vidas conseguem, sem perceber, ocupar simultaneamente a mesma página.Na manhã seguinte, voltou à praça.O banco estava vazio.Sobre ele havia um livro.Ele abriu.Na primeira página, escrita à mão, havia uma única frase:
“Você ainda não nasceu para mim.”
E, pela primeira vez, ele entendeu que talvez aquela frase não viesse do passado.Talvez viesse do futuro.


Muito bom