SONHOS ANIMALESCOS.
André Francisco Gil.
12/03/2026. 10:38 a.m
No Jardim de Brunevan, algumas criaturas são tão estranhas que o próprio vento evita falar delas. Diz-se que essas formas nasceram de sonhos interrompidos, de pensamentos febris ou de erros cometidos pela própria realidade quando tentou se recompor.
A primeira é o Cervo das Sete Máscaras, um animal alto e magro que caminha lentamente entre as árvores de pedra. Em vez de um rosto, ele possui sete máscaras penduradas como frutos em seus galhos de chifre. Cada máscara mostra uma emoção diferente: alegria, medo, raiva, esquecimento, ternura, cansaço e uma sétima expressão que ninguém consegue compreender. Às vezes uma das máscaras cai no chão e se dissolve no solo do jardim. No dia seguinte, alguém no mundo desperta com uma emoção que não sabe explicar.
Outra criatura inquietante é o Homem-Pêndulo, uma figura longa e ossuda que balança para frente e para trás entre dois troncos negros. Seu corpo inteiro funciona como um relógio vivo. Quando ele se move, o tempo no jardim acelera ou desacelera. Às vezes uma flor nasce, envelhece e vira pó em apenas três balanços do seu corpo. Dizem que ele foi, um dia, um viajante que tentou medir o tempo do próprio universo e acabou transformado em instrumento dele.
Entre as raízes profundas vive o Peixe-Coração Cego. Ele nada em túneis de terra líquida que atravessam o jardim por baixo. Seu corpo pulsa como um coração gigantesco e sem olhos. Cada batida sua provoca pequenos tremores no solo. Quando ele passa sob alguém, essa pessoa sente, por um instante, como se estivesse lembrando de algo que nunca aconteceu — uma vida paralela que talvez tenha sido perdida.
Há também os Gêmeos de Espelho, duas criaturas coladas pelas costas que caminham lentamente pelo jardim. Um deles possui um rosto completamente humano; o outro tem um rosto liso, como um espelho líquido. Quem olha para esse espelho vê versões distorcidas de si mesmo: versões mais cruéis, mais felizes, mais antigas ou mais vazias. Muitas pessoas que os encontraram passaram anos tentando esquecer aquilo que viram refletido.
Mais acima, entre as nuvens baixas do jardim, flutua o Boi das Nuvens Mortas. Seu corpo é gigantesco e coberto de uma pelagem cinzenta que parece feita de neblina seca. Ele mastiga pedaços de nuvens que caem do céu, ruminando tempestades antigas. Às vezes, quando exala o ar de seus pulmões, pequenas chuvas começam a cair em lugares muito distantes do mundo.
Outra criatura perturbadora é o Lagarto de Ventrículos Cantantes. Seu corpo é transparente e dentro dele existem pequenos corações que batem em ritmos diferentes, produzindo uma música irregular. À noite, essa música ecoa pelo jardim como um coral quebrado. Alguns dizem que cada coração dentro do lagarto pertence a um sonho abandonado por alguém no mundo humano.
Entre as flores que nunca murcham rasteja a Aranha de Pálpebras. Suas oito pernas são finas e delicadas, mas o mais estranho é que todo o seu corpo é coberto de pequenas pálpebras humanas. Elas piscam lentamente, como se observassem coisas que ninguém mais consegue ver. Quando a aranha passa por uma flor, a flor fecha suas pétalas como se tivesse sido testemunha de algo proibido.
Nos lagos de vidro vive o Cavalo Afogado do Silêncio. Ele surge apenas à noite, emergindo da água sem produzir um único som. Seu corpo parece feito de sombra líquida. Dizem que, quando alguém escuta o trotar desse cavalo — algo extremamente raro — é sinal de que uma parte da realidade acabou de desaparecer em algum lugar do mundo.
Há ainda a Criança de Areia Invertida, uma pequena figura que caminha com a cabeça para baixo e os pés apontados para o céu. De seus olhos escorre areia fina que sobe em vez de cair. Sempre que ela passa por um caminho, o passado daquele lugar se reorganiza: pegadas antigas desaparecem, memórias mudam de posição, histórias trocam de ordem.
Mas a criatura mais perturbadora do jardim é conhecida como O Dormidor de Raízes. Ele não se move e quase nunca é visto inteiro. Apenas partes de seu corpo emergem da terra: um braço coberto de musgo, um olho fechado do tamanho de uma pedra, às vezes um suspiro que faz as árvores se curvarem. Brunevan diz que o Dormidor não é exatamente uma criatura, mas um sonho antigo do próprio jardim. E se um dia ele acordar completamente, talvez todo o jardim precise reaprender a existir.Por isso, quando o vento passa entre as árvores de Brunevan, ele não sopra com força. Ele caminha devagar, quase com cuidado — como se tivesse medo de acordar alguma coisa que deveria continuar sonhando.
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NASCIDOS DOS SONHOS.
No Jardim de Brunevan, as criaturas não nascem de ovos nem de ventre. Elas brotam de ideias esquecidas, de suspiros longos e de sonhos que não foram terminados. Cada uma carrega um fragmento daquilo que os humanos quase lembram quando estão prestes a adormecer.
A primeira delas é o Caramujo de Vidro Interior. Seu casco não é sólido, mas feito de camadas de memórias transparentes. Dentro dele se veem paisagens inteiras: uma praia que nunca existiu, uma infância que talvez pertença a outra pessoa, uma casa construída de silêncio. Ele se move lentamente pelo jardim deixando atrás de si um rastro de pequenas lembranças abandonadas. Quando alguém pisa nesse rastro, recorda subitamente algo que nunca viveu.
Outra criatura frequente é a Garça de Ossos Moles, uma ave alta e melancólica que caminha entre as árvores de pedra. Seus ossos são flexíveis como raízes e dobram-se quando o vento conta histórias antigas. Em vez de penas, ela possui folhas pálidas que sussurram nomes esquecidos. Dizem que quando a Garça pousa perto de alguém, essa pessoa sente uma leve saudade de um lugar que talvez só exista dentro do próprio coração.
Há também os Peixes de Ar Profundo, criaturas que nadam lentamente pelo espaço acima das flores. Seus corpos são feitos de água escura, como pequenos pedaços de noite líquida. Às vezes eles atravessam os pensamentos das pessoas e deixam pequenas bolhas de imaginação que estouram horas depois, transformando-se em ideias, poemas ou pesadelos suaves.
Entre as raízes do jardim vive o Inseto-Catedral. Ele parece um besouro gigantesco cujo casco se abre como portas antigas, revelando dentro dele corredores minúsculos e vitrais de luz âmbar. Pequenas criaturas invisíveis entram ali para rezar por coisas estranhas: pelo retorno das chuvas que nunca caíram, pela cura das árvores cansadas ou pela lembrança de palavras que desapareceram das línguas humanas.
Nas noites em que o vento gira ao contrário, aparecem os Cães de Musgo Lunar. Eles não latem. Apenas caminham em silêncio, cobertos de um musgo azul que brilha suavemente. Seus olhos são dois pequenos lagos. Quando alguém os encara por muito tempo, vê refletidas neles versões diferentes de si mesmo — como se cada decisão da vida tivesse criado outro caminho possível.
Mas a criatura mais rara do jardim é chamada de A Borboleta Cartógrafa. Suas asas parecem mapas em constante transformação. Montanhas surgem e desaparecem, rios mudam de curso, cidades surgem feitas de tinta viva. Quando ela pousa sobre a mão de alguém, por um instante o mundo inteiro parece reorganizar-se — como se o destino tivesse sido redesenhado por um gesto delicado.
E o mais curioso é que Brunevan nunca afirma ter criado nenhuma dessas criaturas. Ele apenas diz que o jardim é um lugar onde as coisas que o universo sonha acabam encontrando um corpo. E quando o vento passa entre as árvores do jardim, é possível ouvir algo que se parece muito com risadas antigas — como se as próprias criaturas estivessem felizes por finalmente existirem.
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O Jardim de Brunevan.
Dizem que o mundo começou quando Brunevan abriu um livro que ainda não havia sido escrito.Era um livro estranho.As páginas eram feitas de vento, e as palavras nasciam apenas quando alguém as lembrava.
Brunevan era um jardineiro de coisas impossíveis. Ele cultivava ecos, sombras mansas e sementes de histórias que ainda não tinham acontecido. Seu jardim ficava no limite entre dois silêncios — um silêncio que vinha do passado e outro que vinha do futuro.Certa manhã, quando o céu estava da cor de um peixe adormecido, ele encontrou Eman sentada dentro de uma concha gigante.
— Estou esperando uma memória — disse ela.
— De quem? — perguntou Brunevan.
— De mim mesma.
Eman tinha olhos que refletiam cidades que nunca existiram. Cada vez que piscava, surgia uma rua nova em algum lugar do universo.Mais tarde, o vento trouxe Leyla.Leyla caminhava com um véu feito de pássaros invisíveis. Onde ela passava, o ar ganhava cheiro de chuva antiga.
— Eu perdi minha sombra — disse ela.
— Onde foi a última vez que você a viu? — perguntou Brunevan.
Leyla pensou.
— Dentro de um espelho que estava sonhando.
Antes que pudessem procurá-la, ouviram risadas vindas do lago de vidro do jardim.Era Melis.Melis tinha a estranha habilidade de transformar pensamentos em peixes luminosos. Eles nadavam pelo ar como constelações líquidas.
— Eu encontrei algo no fundo do lago — disse ela.
E abriu as mãos.Dentro delas havia um pequeno relógio feito de pólen.
— Este relógio mede o tempo das coisas que ainda não nasceram.
Enquanto observavam o relógio, o céu se partiu como uma fruta madura.De dentro dele desceu Aya, envolta em fios de luz azul.Aya falava pouco, porque cada palavra sua fazia nascer uma montanha em algum lugar distante.Ela apontou para o horizonte e disse apenas:
— Está chegando.
E então todos ouviram.Primeiro um sopro.Depois um sussurro.Depois um coro de vozes que pareciam vir do interior da terra.Do meio das árvores de pedra surgiu Aisha.Ela caminhava carregando uma jarra de barro.
— O que há dentro? — perguntou Brunevan.
— O primeiro sonho do mundo — respondeu ela.
Todos ficaram em silêncio.Porque sabiam que abrir aquela jarra poderia acordar coisas muito antigas.Mas Brunevan sorriu.
— Então este é o momento.
Ele abriu o livro sem palavras.Eman fechou os olhos e lembrou de si mesma.Leyla encontrou sua sombra escondida dentro da jarra.Melis soltou seus peixes luminosos no céu.Aya sussurrou três palavras que ninguém entendeu.E Aisha derramou o sonho sobre o jardim.
O chão tremeu.As árvores cresceram para dentro do tempo.Os rios começaram a correr para trás.E o jardim inteiro se transformou em uma cidade feita de histórias.
Brunevan então escreveu a primeira frase do livro:"O mundo começou novamente quando seis estranhos decidiram cuidar do impossível."E desde então, dizem que sempre que alguém sonha com um lugar que nunca viu, está caminhando, sem saber, pelo Jardim de Brunevan.
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